quarta-feira, 1 de outubro de 2008

' Alvarde de Azevedo ' - meu anjo

Meu anjo tem o encanto, a maravilha,Da espontânea canção dos passarinhos;Tem os seios tão alvos, tão macios, Como o pêlo sedoso dos arminhos.Triste de noite na janela a vejo, E de seus lábios o gemido escuto.É leve a criatura vaporosa, Como a froixa fumaça de um charuto.Parece até que sobre a fronte angélica, Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...Formosa a vejo assim entre meus sonhos, Mais bela no vapor do meu cachimbo.como o vinho espanhol, um beijo dela, Entorna ao sangue a luz do paraíso.Dá morte num desdém, num beijo vida,E celestes desmaios num sorrizo!Mas quis a minha sina que seu peito, Não batesse por mim nem um minuto,E que ela fosse leviana e bela,Como a leve fumaça de um charuto!

' Alvarde de Azevedo ' - Adeus, meus sonhos

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!Não levo da existência uma saudade!E tanta vida que meu peito enchia, Morreu na minha triste mocidade!Misérrimo! Votei meus pobres dias, À sina doida de um amor sem fruto,E minh'alma na treva agora dorme, Como um olhar que a morte envolve em luto.Que me resta, meu Deus?Morra comigo, A estrela de meus cândidos amores,Já não vejo no meu peito morto, Um punhado sequer de murchas flores!